Por:
Mário Alexandre
Médico, ex-prefeito de Ilhéus 2017-2020 e 2021-2024, ex-vice-prefeito de Ilhéus 2008-2012.
Resumo
Este artigo analisa a crise da segurança pública em Salvador e Ilhéus a partir do conceito de efeito espectador institucional, inspirado no clássico caso de Kitty Genovese (1964). Assim como no bystander effect, quando a responsabilidade de agir é difusa, as instituições tendem à omissão. Em Salvador, a ausência histórica de políticas municipais de prevenção urbanística e social contribuiu para a expansão de facções criminosas. Em Ilhéus, os episódios violentos de 2025 revelam risco semelhante, embora a cidade tenha registrado avanços entre 2017 e 2024, como a criação do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGI-M), a profissionalização da Guarda Municipal e iniciativas de urbanismo social. Defende-se que a omissão municipal é um dos principais agravantes da insegurança e que políticas urbanísticas, sociais e institucionais no território são indispensáveis para frear a violência e evitar a reprodução do caos vivido na capital baiana.
Palavras-chave: Segurança pública; efeito espectador institucional; Ilhéus; Salvador; urbanismo social; políticas municipais.
1. Introdução
A segurança pública brasileira é marcada por tensões federativas. Embora a Constituição Federal atribua papel central aos estados na organização das polícias, os municípios também possuem competências relevantes (art. 30, CF/88), especialmente no interesse local e na promoção de políticas de prevenção.
Quando o município se omite, transfere ao Estado toda a responsabilidade pela segurança e se torna mero espectador. Essa dinâmica repete o efeito espectador, conceito cunhado por Latane e Darley (1968) após o assassinato de Kitty Genovese em Nova York: quanto maior o número de testemunhas, menor a chance de intervenção. No campo institucional, quanto maior a dispersão de responsabilidades, maior a omissão coletiva.
Salvador é exemplo consolidado desse processo. Ilhéus, após avanços institucionais e urbanísticos, vive em 2025 uma crise que pode levá-la ao mesmo caminho.
2. O Efeito Espectador Institucional
O conceito de efeito espectador (bystander effect) nasceu a partir de um episódio trágico ocorrido em Nova York, em 1964. Na madrugada de 13 de março daquele ano, Kitty Genovese, uma jovem de 28 anos, voltava para casa no bairro de Kew Gardens, Queens, quando foi brutalmente atacada e assassinada por Winston Moseley.
A princípio, o caso teria sido apenas mais um crime na metrópole, mas ganhou repercussão mundial após reportagem do The New York Times noticiar que 38 vizinhos ouviram ou viram parte do ataque e não fizeram nada para ajudar. Kitty gritou por socorro diversas vezes, e o crime se prolongou por cerca de meia hora. Apesar disso, a maioria dos vizinhos se calou, alguns chegaram a apagar as luzes das janelas e apenas uma pessoa chamou a polícia, já tarde demais.
Embora pesquisas posteriores tenham relativizado o número de testemunhas passivas — que pode ter sido menor do que se divulgou — o caso tornou-se um símbolo da indiferença urbana.
Foi a partir dele que os psicólogos sociais Latane e Darley (1968) desenvolveram o conceito de difusão da responsabilidade: quanto maior o número de testemunhas em uma situação de emergência, menor a probabilidade de que cada uma intervenha, porque todos acreditam que “alguém fará alguma coisa”.
Essa mesma lógica pode ser aplicada às instituições públicas, configurando o que chamamos aqui de efeito espectador institucional.
No campo da segurança pública:
• O município acredita que a responsabilidade é do Estado.
• O Estado centraliza sua resposta em forças policiais, sem integrar políticas sociais.
• A União atua apenas de forma episódica, com programas pontuais.
Assim como no caso de Genovese, em que muitas testemunhas se omitiram acreditando que outro interviria, no plano institucional a difusão da responsabilidade entre entes federativos gera omissão coletiva. O resultado é o agravamento da violência e a sensação de abandono da população.
Em outras palavras: quando todos têm responsabilidade pela segurança, mas ninguém age com protagonismo, as cidades se tornam reféns da mesma lógica que matou Kitty Genovese em 1964.
3. Ilhéus: avanços interrompidos e a crise de 2025
Em 2025, Ilhéus enfrenta episódios graves: o triplo homicídio de mulheres em praia turística, o estupro coletivo no Pontal, homicídios na Praia dos Milionários e na zona rural e a execução de líderes locais por facções. O movimento “Calaram três de nós” traduziu a indignação social diante da violência e expôs a fragilidade da presença estatal no município.
Todavia, a cidade não partiu do zero. Entre 2017 e 2023, houve avanços institucionais relevantes:
• 2017: criação do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGI-M), pioneiro no interior da Bahia, antecipando os princípios da Lei 13.675/2018 (SUSP).
• 2020: aprovação do Plano de Cargos da Guarda Municipal, profissionalizando a tropa.
• 2021: realização de eleição interna para escolha do comandante, rara experiência de accountability democrática dentro da corporação.
• 2023: modernização da Guarda com quadriciclos (primeira cidade da Bahia a adotar patrulha de praias com esse método), autorização de uso de Taser, novas viaturas e parceria com a Polícia Federal para regulamentar o porte de armas.
Essas medidas mostraram visão institucional e consolidaram uma base de políticas públicas de segurança. Entretanto, em 2025, a inexperiência do gestor atual e o acirramento político com o governador, marcado por ataques pessoais, desviaram o foco da agenda de segurança. O município, em vez de assumir protagonismo institucional e cooperativo, passou a se colocar como antagonista do Estado, reproduzindo uma lógica de confronto político que agrava a crise.
Com isso, Ilhéus corre o risco de transformar um problema grave em uma crise ainda maior, pois a politização do tema desvia a atenção de medidas concretas de enfrentamento, que deveriam priorizar a integração entre município, Estado e União. O papel da Prefeitura, nesse contexto, deveria ser o de liderar soluções institucionais no território, fortalecendo políticas sociais, urbanísticas e de prevenção, e não o de ampliar tensões políticas que enfraquecem a coordenação federativa.
4. Urbanismo e presença do poder público como segurança
A segurança pública não se constrói apenas com policiamento ostensivo, mas também com a presença contínua do poder público no território. É essa a premissa do urbanismo social, cada vez mais valorizado como ferramenta de prevenção da violência (Valor Econômico, 2024). Experiências internacionais e nacionais demonstram que espaços urbanos cuidados, iluminados, limpos e dotados de infraestrutura reduzem a vulnerabilidade ao crime e fortalecem o tecido comunitário.
Ilhéus é exemplo disso. Nos últimos anos, diversas obras de urbanismo, infraestrutura e ações ambientais mostraram que a ocupação estatal do espaço público funciona como política de segurança indireta.
Em 2020, o fechamento do Canal do Malhado representou uma transformação urbana e econômica. Antes associado ao mau cheiro e à degradação, o canal foi requalificado, beneficiando cerca de 4 mil feirantes e impulsionando a economia popular. Além do impacto econômico, a obra simbolizou a reconquista de um território degradado pelo poder público, reduzindo o estigma e aumentando a circulação social legítima — uma demonstração prática da tese de Jacobs (1961) sobre os “olhos da rua”.
Na sequência, ações de pavimentação comunitária (2023/2024) mudaram a realidade de bairros periféricos. Ruas pavimentadas trouxeram dignidade, reduziram o isolamento e facilitaram o patrulhamento da Guarda Municipal e da Polícia Militar. O mesmo ocorreu com a pavimentação asfáltica da Avenida José Luís da Fonseca, que ampliou a mobilidade, facilitou a integração de bairros e estimulou a vitalidade urbana. Conforme defende a ONU-Habitat (2011), o acesso a infraestrutura urbana básica é fator central de prevenção da violência, porque conecta pessoas, serviços e instituições.
Outro exemplo marcante foi a revitalização de praças na zona norte de Ilhéus (2024). Praças abandonadas, vulneráveis ao domínio do crime, foram transformadas em espaços iluminados, com equipamentos de lazer e esportes. Essa ressignificação do espaço público fortaleceu a convivência comunitária e ampliou a presença cidadã. Como lembra Caldeira (2000), a reapropriação simbólica e funcional do espaço urbano é fundamental para reduzir a segregação e ampliar a cidadania.
Também as escadarias turísticas (2023), pintadas como elementos culturais e visuais, e a escadaria do Alto do Coqueiro (2024), entregue junto a mutirões de saúde e assistência social, demonstram que urbanismo e política social podem caminhar juntos. Esses projetos não apenas melhoraram a mobilidade, mas também reforçaram a presença do poder público em áreas antes esquecidas, mostrando que a prevenção da violência passa pela dignidade no espaço urbano.
O Projeto Comunidade Segura (Neoenergia, 2024) ampliou o escopo da segurança para o campo da energia e cidadania, regularizando ligações clandestinas, prevenindo riscos de acidentes e reforçando o vínculo da comunidade com a legalidade.
Por fim, em 2024, a Prefeitura realizou a retirada de baronesas e lixo das praias, ação ambiental que também possui reflexos diretos sobre a segurança urbana e turística. Praias limpas e preservadas transmitem sensação de cuidado estatal, ampliam a confiança dos moradores e visitantes e reduzem vulnerabilidades ligadas ao abandono do espaço público. Territórios costeiros degradados tendem a se tornar áreas de risco, suscetíveis a pequenos delitos, tráfico ou exploração irregular. Já praias bem cuidadas reforçam a circulação cidadã e o turismo seguro, funcionando como exemplo de que a manutenção ambiental também é política de segurança preventiva.
Essas ações demonstram que em Ilhéus o urbanismo social já foi praticado como política de segurança. O fechamento de canais, a pavimentação de ruas, a revitalização de praças e escadarias, a limpeza ambiental das praias e até a regularização da energia elétrica são exemplos de como o município pode — e deve — ocupar o território, reduzindo vulnerabilidades e refreando o crime.
O risco, contudo, é que tais experiências sejam abandonadas em meio a disputas políticas, enquanto a população enfrenta o avanço da violência. Ao contrário de Salvador, onde a omissão municipal permitiu que o crime se territorializasse em bairros inteiros, Ilhéus possui histórico de intervenções que mostram um caminho alternativo. Mas, para isso, é necessário que o gestor municipal deixe de lado embates pessoais e cumpra seu papel institucional, atuando em parceria e de forma concreta na prevenção da violência, pois a segurança nasce também do espaço urbano cuidado, iluminado, limpo e ocupado pela cidadania.
5. Conclusão
O conceito de efeito espectador institucional explica por que a omissão municipal é um dos principais agravantes da insegurança. Salvador é o exemplo extremo desse processo: bairros dominados por facções diante da ausência histórica da Prefeitura, que preferiu restringir-se a funções burocráticas, deixando o território à mercê do crime.
Ilhéus, por sua vez, vive em 2025 um dilema. De um lado, possui um legado recente de avanços institucionais e urbanísticos — como a criação do GGI-M, a profissionalização da Guarda Municipal, a modernização de equipamentos de patrulhamento e a implementação de obras de urbanismo social. Esses passos demonstraram que a cidade tem condições de construir um modelo alternativo de segurança, combinando prevenção social, ocupação do espaço urbano e fortalecimento institucional.
De outro lado, a inexperiência do gestor atual e a escolha de uma postura de confronto político com o governador, marcada por ataques pessoais, colocam em risco esse caminho. Ao transformar a segurança em palanque, o município perde foco, debilita a cooperação federativa e abandona medidas concretas de enfrentamento. Assim, em vez de liderar políticas integradas de segurança territorial, a Prefeitura corre o risco de aprofundar a crise e deixar Ilhéus exposta à mesma lógica de desorganização que marcou a capital baiana.
A experiência mostra que segurança não é apenas polícia. É também rua pavimentada, escadaria revitalizada, praça iluminada, praia limpa, mutirão de saúde, energia regularizada, Guarda Municipal valorizada. Quando o município assume protagonismo institucional, cria barreiras contra o crime e fortalece o tecido social. Quando prefere o embate político e a omissão prática, abre espaço para que o crime se territorialize.
O futuro de Ilhéus depende, portanto, de uma decisão política fundamental: se o governo municipal continuará a alimentar disputas pessoais em detrimento da população, ou se retomará o papel institucional que lhe cabe, em cooperação com o Estado e a União, para construir soluções concretas de prevenção e enfrentamento da violência.
Ainda que, recentemente, o prefeito tenha buscado diálogo com o secretário de Segurança Pública da Bahia, essa reunião, embora positiva, é insuficiente diante da gravidade da crise. O desafio de Ilhéus exige mais do que encontros episódicos: requer planejamento, continuidade de políticas urbanísticas e sociais e cooperação institucional duradoura. Sem isso, a cidade continuará refém do efeito espectador institucional.
Referências
Bibliográficas e acadêmicas
CALDEIRA, Teresa P. R. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34/Edusp, 2000.
DARLEY, John M.; LATANÉ, Bibb. Bystander intervention in emergencies: Diffusion of responsibility. Journal of Personality and Social Psychology, v. 8, n. 4, p. 377-383, 1968.
JACOBS, Jane. The Death and Life of Great American Cities. New York: Random House, 1961.
KELLING, George L.; WILSON, James Q. Broken Windows: The police and neighborhood safety. The Atlantic Monthly, v. 249, n. 3, p. 29-38, 1982.
ONU-HABITAT. State of the World’s Cities 2010/2011: Bridging the Urban Divide. Londres: Earthscan, 2011.
ROSANVALLON, Pierre. La contre-démocratie: la politique à l’âge de la défiance. Paris: Seuil, 2006.
VALOR ECONÔMICO. Urbanismo social ganha espaço no combate à violência. São Paulo, 26 dez. 2024. Disponível em: https://valor.globo.com/google/amp/brasil/noticia/2024/12/26/urbanismo-social-ganha-espaco-no-combate-a-violencia.ghtml.
Legislação
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Senado, 1988.
BRASIL. Lei nº 13.675, de 11 de junho de 2018. Institui o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2018.
Reportagens e fontes jornalísticas locais
ALO ALO BAHIA. Ilhéus vai pintar escadarias de pontos turísticos para embelezar cidade. 2023. Disponível em: https://aloalobahia.com/notas/ilheus-vai-pintar-escadarias-de-pontos-turisticos-para-embelezar-cidade.
BLOG DO CHICO. Prefeitura realiza ações para retirada de baronesas e lixo das praias de Ilhéus. 27 jan. 2024. Disponível em: https://www.blogdochico.com.br/v1/2024/01/27/prefeitura-realiza-acoes-para-retirada-de-baronesas-e-lixo-das-praias-de-ilheus/.
BOCÃO NEWS. Programa de pavimentação comunitária transforma bairros e resgata dignidade em Ilhéus. 2024. Disponível em: https://bocanews.com.br/ilheus/programa-de-pavimentacao-comunitaria-transforma-bairros-e-resgata-dignidade-em-ilheus/.
ILHÉUS.COM.BR. Revitalização de praças na zona norte e obras de pavimentação avançam em Ilhéus. 2024. Disponível em: https://ilheus.com.br/revitalizacao-de-pracas-na-zona-norte-e-obras-de-pavimentacao-avancam-em-ilheus/.
ILHÉUS.NET. Mutirões de saúde e social marcam entrega de escadaria no Alto do Coqueiro. 2024. Disponível em: https://www.ilheus.net/2024/06/mutiroes-de-saude-e-social-marcam-entrega-de-escadaria-no-alto-do-coqueiro.html.
NEOENERGIA. Ilhéus recebe a primeira edição do projeto Comunidade Segura da Neoenergia Coelba. 2024. Disponível em: https://www.neoenergia.com/web/bahia/w/iheus-recebe-a-primeira-edicao-do-projeto-comunidade-segura-da-neoenergia-coelba.
O TABULEIRO. Prefeitura de Ilhéus conclui pavimentação asfáltica na Avenida José Luís da Fonseca. 2024. Disponível em: https://www.otabuleiro.com.br/blog/prefeitura-de-ilh-us-conclui-pavimenta-o-asf-ltica-na-avenida-jos-lu-s-da-fonseca.
BAHIA ECONÔMICA. Ilhéus: obra do fechamento do Canal do Malhado vai melhorar a economia local para cerca de 4 mil feirantes. 29 set. 2020. Disponível em: https://bahiaeconomica.com.br/wp/2020/09/29/ilheus-obra-do-fechamento-do-canal-do-malhado-vai-melhorar-a-economia-local-para-cerca-de-4-mil-feirantes/.