ILHÉUS

Quando o governo se esgota, corrói a confiança popular

Por : Prof.Emenson Silva

Por muito tempo ouvi meu avô repetir um velho ensinamento: “No começo, tudo são flores”. A frase, simples e carregada de sabedoria popular, parece encaixar-se perfeitamente na atual realidade política de Ilhéus. Quem não se lembra de quando a imprensa regional destacou que o prefeito Valderico Júnior alcançava impressionantes 81% de aprovação popular? À época, segundo levantamento divulgado pela LMS Sondagem de Opinião, a população avaliava positivamente os serviços públicos, as obras em andamento e as políticas implementadas pela nova gestão. O clima era de entusiasmo, expectativa e confiança.

Entretanto, passados alguns meses, o cenário político parece outro e as expectativas estão virando frustações. O chamado “período de lua de mel” entre governo e população ficou para trás. As emoções deram lugar à razão, e a expectativa passou a ser confrontada com a realidade da administração pública diga-se de passagem amadora e pífia. Uma pesquisa realizada em 15 de julho de 2026 aponta um quadro bem diferente. Segundo os dados divulgados, 40,82% dos entrevistados classificam o governo como ótimo ou bom; 44,11% o consideram regular; e 14,07% avaliam a gestão como ruim ou péssima. Os números, por si só, levantam uma pergunta inevitável: o que há para comemorar?

Talvez por isso não tenham existido grandes campanhas comemorativas, cards coloridos, luzes, flashes ou celebrações públicas. Afinal, quando a curva de aprovação despenca de 81% para pouco mais de 40%, o momento exige menos marketing e mais reflexão. Toda administração pública passa por desgaste natural. Contudo, quando esse desgaste ocorre ainda no início do mandato, ele merece uma análise cuidadosa. O governo Valderico Júnior precisa avaliar a rota que vem seguindo. A pergunta que começa a ganhar força entre observadores da política local é simples: o governo está governando ou continua fazendo política eleitoral?

Há a percepção de que parte do secretariado ainda atua com a lógica do palanque, como se a campanha não tivesse terminado. A eleição acabou. A partir da posse, a população deixa de cobrar discursos e passa a exigir resultados. A pesquisa recente acende um claro sinal de alerta. Ela evidencia uma fragilidade política que não pode ser ignorada. Mais do que uma simples oscilação estatística, os números sugerem um processo de perda gradual de confiança.

Outro aspecto que chama atenção é a comunicação institucional. Em diversos momentos, a impressão transmitida é a de que o governo confunde comunicação pública com marketing político. Enquanto a publicidade procura construir uma imagem positiva, a comunicação governamental precisa ser sustentada por resultados concretos. Sem entregas perceptíveis pela população, a narrativa oficial perde força.

Nesse contexto, agendas negativas acabam ocupando espaço e influenciando diretamente a percepção popular. Entre os fatores apontados por críticos da administração estão a crise na educação, denúncias envolvendo a merenda escolar — que, quando mencionadas, que já está sendo devidamente apuradas pelas autoridades competentes e daqui a pouco veremos os seus desdobramentos, a implantação de radares em diversos pontos da cidade, problemas relacionados ao transporte público, o abandono de comunidades do interior do município e as dificuldades enfrentadas na área da saúde.

Na saúde, as reclamações incluem unidades com estruturas deterioradas, equipamentos sucateados, falta de medicamentos, escassez de fraldas geriátricas e dificuldades de acesso a um atendimento considerado digno pela população. São questões que, somadas, ajudam a explicar o desgaste da gestão. Naturalmente, medidas impopulares fazem parte da administração pública. Contudo, quando elas se acumulam sem que haja uma percepção equivalente de melhorias nos serviços essenciais, o custo político tende a aumentar.

O ambiente político também demonstra sinais de instabilidade. A ausência de maior articulação política e institucional amplia as insatisfações e torna o governo mais vulnerável a novas crises. Em um cenário assim, qualquer episódio negativo possui potencial para produzir novos impactos sobre os índices de aprovação. Ainda há tempo para corrigir a rota. Mas isso exige mudanças de postura.

É preciso que parte do secretariado abandone definitivamente o clima eleitoral e passe a concentrar esforços na formulação e execução de políticas públicas capazes de produzir transformações concretas na vida da população, sobretudo daqueles que vivem nas periferias e nas áreas mais vulneráveis do município. Humildade administrativa, diálogo com a sociedade, capacidade de ouvir críticas e foco na entrega de resultados costumam produzir efeitos mais duradouros do que campanhas publicitárias.

O governo precisa compreender que popularidade não se sustenta apenas com marketing. Sustenta-se, principalmente, com eficiência administrativa, credibilidade e capacidade de responder às demandas da população. Se a promessa da renovação foi o principal combustível eleitoral da atual gestão, chegou o momento de demonstrar que ela pode ser traduzida em políticas públicas efetivas. Porque, na política, a confiança popular é um patrimônio valioso. Demora para ser conquistada, mas pode ser perdida em pouco tempo. E quando um governo começa a perder a confiança da população, não basta comunicar melhor: é preciso governar melhor.

 

 

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