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Belchior e Caetano: dois gênios, um país em tensão

Durante muito tempo, repetiu-se que Belchior e Caetano Veloso teriam sido rivais. A narrativa é sedutora, simples e comercializável — mas substancialmente falsa. O que existiu entre eles não foi rivalidade pessoal, e sim algo raro na cultura brasileira: um desacordo de alta estatura, daqueles que não empobrecem o debate, mas o eleva.

Ambos pensaram o Brasil no mesmo tempo histórico, sob a mesma sombra autoritária. O que os distingue não é o destino, mas o método. E é justamente aí que reside a genialidade de cada um.

Caetano Veloso é o artista da metamorfose. Desde o tropicalismo, sua obra sustenta que a cultura não se protege da crise — ela a incorpora. Mistura, tensiona, ironiza. Para Caetano, a arte não deve oferecer repouso, mas deslocamento. Seu Brasil é fragmentado, contraditório, global e profundamente inventivo. Não há pureza a preservar; há formas a reinventar.

Belchior, por outro lado, é o poeta da fratura. Sua canção não dissolve a angústia; ela a nomeia. Canta o esgotamento das promessas, o atraso que sobrevive ao discurso moderno, o jovem que acreditou no futuro e encontrou portas fechadas. Belchior não fala de um Brasil possível — fala do Brasil concreto, com suas promessas descumpridas e sua melancolia de estrutura.

Quando canta, em Apenas um Rapaz Latino-Americano, que "nada é divino, nada é maravilhoso", Belchior não ataca Caetano. Ele recusa o anestésico. Recusa a ideia de que a reinvenção estética, por si só, seja suficiente para dar conta do colapso social e existencial do país. É uma crítica de posição, não de pessoa. Um gesto intelectual, não um ressentimento.

Caetano sempre compreendeu isso. Jamais respondeu com hostilidade; jamais reduziu Belchior a antagonista. Porque gênios reconhecem gênios. Porque a verdadeira arte não teme o pensamento divergente — ela o convoca.

O equívoco foi da crítica — e talvez do público — ao converter diferença em disputa. Ao forçar lados, escolas, trincheiras. Belchior virou o "anti-tropicalista"; Caetano, o emblema de um otimismo estético supostamente alienado. Nada mais redutor.

Na verdade, ambos reagiam ao mesmo trauma histórico. Um pela via da reinvenção formal. Outro pela via da lucidez desencantada. Um apostando que o mundo ainda pode ser reorganizado. O outro recordando que há feridas que não cicatrizam com metáforas.

Para os que hoje assistem ao debate público, essa história guarda uma lição. Vivemos um tempo em que discordar virou sinônimo de cancelar, e complexidade passou a ser tratada como defeito. Belchior e Caetano ensinam o contrário: é possível divergir sem empobrecer o debate; é possível pensar diferente sem destruir o interlocutor.

Eles não disputaram espaço.

Ampliaram o território da música e do pensamento brasileiro.

E talvez essa seja a maior herança que nos deixaram: a cultura não avança pelo consenso raso, mas pelo diálogo profundo entre inteligências que se respeitam — mesmo quando não caminham lado a lado.


Jerbson Moraes

Advogado | Escritor | Pesquisador em Direito e Cultura


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